Em qualquer lugar que o vento sopre

(Um conto baseado em Bohemian Rhapsody do Queen)

PRÓLOGO

O pôr do sol caía trêmulo, vermelhante, num abafado fim de  tarde de setembro. As silhuetas dos edifícios construíam a paisagem da cidade onde Frederick “Fred” Pasternak vivia. Uma cidade cinza, ébria e injusta. Uma cidade onde coisas sinistras aconteciam a todo momento.

Fred dirigia sua motocicleta pela via expressa. Ia para fora da cidade, fora daquele mundo imundo que o sufocava, que o reprimia. Dentro do capacete, ele transpirava e tremia ao acelerar rumo ao campo. Seus olhos eram a pura expressão da agonia do ser humano comum, extorquido física e mentalmente pelo sistema corrupto da sociedade que o manipulava. Se pudesse se vingar, Fred com certeza o faria da pior forma possível.

Pegou a via lateral e entrou numa estrada vicinal, em poucos minutos estava estacionando a moto em frente à casa da única pessoa que ele ainda amava neste planeta.

– Frederick! – Ela exclamou ao vê-lo entrar pela porta da frente. Com o semblante sombrio, ele respondeu:

– Mãe, acabei de matar um homem.

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Gerson Vampiro e a Noite dos enforcados

Gerson era conhecido por ser um fumante compulsivo, um boêmio de carteirinha e um viciado em puteiro. Em seu meio de convivência tinha o apelido de Vampiro, dado pela Senhora Jandira Cascavel dona da Boate Black Night, na ocasião que ficou conhecida como “A noite dos enforcados”. Não se desespere, conto a seguir.

Jandira era dessas cafetinas clássicas, abandonada pelo marido, trauma com as filhas, alcoólatra, adora um forró e um pau pra sentar. Levantou do nada um boteco que logo virou atração local. Convidou umas meninas para animar o ambiente certa noite e ali nasceu a Boate Black Night. Nosso ilustre Gerson, cliente das antigas, se tornou logo o mais assíduo frequentador do local. Chamava todas as meninas pelo nome, tinha uma mesa só para si e as vezes até prestava alguns serviços de encanador, mecânico e eletricista para a casa.

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Querido diário

O ano é 2087. O dia é 13 e o mês Onzembro. Este nome me parece péssimo toda vez que pronuncio, escrito então me enoja. Depois que os anos solares aumentaram, tiveram que aumentar um mês também. Não sei bem o impacto que isso trouxe, mas as pessoas têm falado muito sobre um 14º salário, que nunca veio.

Me mudei recentemente. Depois da morte de minha esposa voltei para a casa onde meu pais viveram sua velhice. Nada mais poético que terminar meus dias ali também. Sofia não me visita há alguns meses. Ela sentiu muito a perda da mãe e no fundo nunca foi muito apegada a mim. Ela não me chama de pai desde que fez 15 e se casou com aquele inglês sem tipo.

A casa continua a mesma. Claro, tiveram que trocar as portas de madeira maciça pelas portas modernas de LPD (Liquid Platinum Door). Também tentaram manter a pegada rústica do local, mas as madeiras dos móveis já estavam velhas demais por causa do excesso de carbono que os novos ar condicionado expelem. No fim só tem madeira nas fotos mesmo.

Ah sim, por falar em carbono, tive que gastar todas as minhas econômicas num pulmão novo. Quem diria? Não fumante e tive câncer aos 66. Sorte que agora eles trocam o tecido humano como se fosse uma roupa. Na minha época era agonizar em quimioterapia até cair os cabelos. Que azar o meu.

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Memórias rabiscadas em brochurão

A primeira coisa que me lembro é da escola. Não sei bem quantos anos tinha, uns 6 talvez. Fui levado por meu velho até uma sala onde ele me deixou com minha merendeira e disse:

– Obedeça àquela senhora.

Não me lembro de minha primeira professora, mas me lembro da sala. Colorida e repleta de letras e números colados nas paredes. Tinha grandes janelas que sempre ficavam abertas, mas do outro lado à altura era considerável. A metade de baixo das paredes era pintada de um verde escuro. A metade de cima era branca. Nos corredores de toda a escola essa pintura se repetia. Eu era fascinado com as cores.

A minha merendeira era amarela, quadrada, com alça branca. Nela eu levava todos os dias uma garrafa de suco natural e uma fruta (às vezes um pacote de Ruffles) . No caminho para escola, fazia meu pai parar num mercado onde me comprava as coisas. Também o fazia comprar punhados de chicletes do meu desenho animado favorito. As figurinhas que vinham no chiclete eu colava na merendeira. Em poucas semanas de aula eu havia coberto a merendeira com figuras de Seiya, Shiryu, Hyoga e Ikki. Shun não. Shun era viado.

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Vida Boêmia

O negócio dele nunca foi engenharia, direito, computador ou qualquer cursinho desses que se faz às ordens e custos dos pais. O negócio dele nunca foi atividade física, comida natureba, caminhadas com o sol nascendo. O negócio dele é balcão de buteco, cerveja, sinuca e mulher faceira.

Todos os dias ele acorda lá pelas 10. Escanhoa o rosto com a gilete laranja, gasta e ainda suja do dia anterior. Toma um banho longo e quente – não importa a estação – e empurra goela abaixo 2 pães sujos de margarina e um copo americano de café preto forte. Dá um tapa na bunda da mulher e vai pro bar.

A rua ainda está parada. As pessoas costumam trabalhar por essas horas. Ele não. Ele ruma ao seu templo – como faz todos os dias, seja segunda ou domingo, feriado ou dia santo. Desfila com seus 33 carnavais bem esculpidos num jeans novo, chinelo Havaianas e camiseta de botão. O perfume é presente de mulher e o cabelo leva quanto gel der.

– Bom dia Gordo. Me vê duas linguiças e uma branquinha.

Chama o dono do bar pelo apelido. Almoça tranquilo. O bar está vazio, só o rádio agita o ambiente. As notícias não lhe interessam apenas a rua diz a verdade.

– Que dia é hoje Gordo?

– Terça.

– Tem jogo hoje?

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Alan Broyd e a tempestade em Cranston (Parte 2)

Capítulo 2

                                               Antony Colleman, o Bêbado

 

Eram quase nove da manhã quando batia a porta do velho Trailer de Antony Colleman, ficava à uns cinco quilometros do centro da cidade escondido por entre a copa das árvores na beira da estrada, a chuva caía leve, dando lugar a apenas algumas gotas suaves que beijavam meu rosto e o lugar todo fedia a lama.

– Senhor Colleman, aqui é a polícia. – Anunciei aos berros, porém ninguem atendeu.

Empurrei a porta entreaberta e tomei a Liberadade de entrar, escutei o barulho de ferro rangendo enquanto empurrava a maçaneta, senti um forte cheiro de mofo vindo de dentro do trailer. Havia uma pilha de louças velhas e sujas em uma pequena pia,  uma mesa presa por barras de ferro junto a parede, apoiava um balde  que, inutilmente tentava conter a goteira que vinha do teto, do outro lado um estreito quarto com uma cama de lençóis sujos, também estava prendida a parede,  o chão era um mar de latas de cerveja, embalagens de fast-food e batatas fritas emboloradas, era um local até aconchegante a se julgar pelo tamanho,  porém o descuido de seu dono o tornara nada habitável.

– Senhor Colleman?  – Tornei a chamar, nada.

Mais ao fundo, havia uma modesta tv de cubo, com uma antena de metal em forma de V, no sofá um cinzeiro ainda exalava fumaça de uma guimba e do lado um porta retrato virado de cabeça para baixo.  Cuidadosamente , adentrei e tomei o objeto em minhas mãos. Era a foto de uma menina,  uma bela criança de aproximadamente dois anos de idade, ralos cabelos dourados e olhos extremamente azuis me encaravam e  sorriam sem dentes. Antes que pudesse analisar mais a imagem, ouvi passos na lama, vindos de fora do trailer.

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Alan Broyd e a tempestade em Cranston. (Parte 1)

Prólogo

Aos poucos as nuvens preencheram o céu e as gotas começaram a rasgar o ar e pintar as lápides de um tom mais escuro de cinza, o crepúsculo se aproximava e naquele dia, por algum motivo, o canto dos pássaros não era alegre como o de outrora.

Parte da pequena cidade de Cranston assistia incrédula ao discurso solene do Padre Calvin, enquanto alguns homens desciam com a pequena urna pela cova. Apesar de ser um reverendo de aparência humilde e de fala mansa, Calvin recitava canticos em aramaico de maneira tão grave que alguns tenores iniciantes teriam inveja. Juntando isso ao barulho da chuva, o tom fúnebre entristecia ainda mais os que ali estavam.

Jeremy Uperheint, segurava sua esposa entre os braços, tentando, em vão, conter os soluços e os lamentos pela brutal morte de sua filha. Fitava atônito os dizeres gravados na lápide enquanto tentava compreender tudo o que se passava, desejava que tudo fosse um enorme pesadelo.
SASHA G. UPERHEINT
29 de Agosto , 1978 – 12 de Julho, 1986
“Um anjo que estará sempre presente em nossas vidas”

Não muito longe dali, me encostei em uma das árvores onde pudesse me desviar da chuva e ascender um cigarro enquanto observava aquelas pessoas. Cada um era um suspeito em potencial, o assassino poderia estar ali mesmo observando, seja por remorso ou talvez por um prazer doentio. Continuar lendo

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